
“O Homem-ecológico”
Entrevista com Fernando Soneghet Pacheco, autor do livro “O Homem-ecológico: a falência do modelo social e o despertar de uma nova consciência”
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 Fernando Soneghet Pacheco - Engenheiro, permacultor, educador ambiental e presidente do Instituto Capixaba de Permacultura e Tecnologias Intuitivas – EcoOca, - www.ecooca.com.br - localizado na região serrana do Espírito Santo.
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A turbulência por que passa o mundo pós-moderno não é o fim dos tempos como temem alguns, é apenas o fim de uma era, de um modelo, de um jeito de fazer as coisas: é o fim da era hegemônica do homem-social. O homem-social é este que somos, que caminha em direção ao futuro e tudo faz pela ótica do aperfeiçoamento social. Seu objetivo máximo é conquistar a cidadania; e muito embora seja uma boa e nobre meta, não é o suficiente. Em nome da conquista de uma igualdade social e de um maior bem-estar o homem desse tempo agride o meio ambiente de maneira que torna sua grande morada cada dia menos sustentável. - Estamos à beira de uma ruptura, afirma o autor, da falência de um modelo de vida coletiva que atingiu seu limite máximo de elasticidade e não consegue mais responder às enormes demandas de um homem que se acha cada vez mais merecedor de mais bens, energia e conforto. |
Quem é o homem-ecológico? É necessário se voltar uns 150 mil anos atrás e verificar que já fomos homens-físicos quando nos movíamos pelos nossos instintos, já fomos homens-emocionais quando incorporamos o subjetivo à nossa rotina e já fomos homens-racionais quando descobrimos a razão e a lógica. Hoje somos homens-sociais; vivemos para aperfeiçoar as relações humanas. Isto, entretanto, não é o suficiente se quisermos que nossos netos possam beber um copo de água pura daqui a 50 anos. O homem-ecológico será aquele que conseguir, sem sacrifício, agir no cotidiano sentindo-se parte e não gestor de seu habitat. Ele reconhecerá em todas as manifestações vitais - ar, água, animais, e plantas - os mesmos direitos que hoje atribui apenas aos seres humanos.
E o que isso significará na prática? Significará uma mudança muito radical em nossa rotina; e isso não será fácil. Nossa espécie lutou muito para conquistar o grau de conforto que hoje tem e não abrirá mão facilmente disso. Dominar a natureza e tirar dela tudo que nos desse bem-estar foi a única preocupação das 4.000 gerações que nos antecederam. Não se muda uma tradição sem um “bom argumento”.
E o que pode ser esse “bom argumento” ? Uma ruptura, uma boa sacudida, um susto,.algo que nos mostre de maneira dramática, clara e definitiva que o caminho que estamos seguindo chegou a seu fim e não tem volta nem correção de rumo. O que precisa mudar é o jeito de fazer as coisas, o contexto não o conteúdo. Não se pode prever o que será, mas terá ecológico como adjetivo, e ficará claro para todos que, ou mudamos de conduta ou feneceremos todos. Muitos estudos sérios já anunciam uma reação enérgica da natureza contra as agressões que vem sofrendo. A natureza não reage, se vinga!
Mas, e se “todos” fizermos um esforço coletivo ...? Isto não é possível. Quase todas as nossas atitudes são governadas, na verdade, por um acordo tácito e não declarado entre estes importantes representantes do homem-social que chamo de comerciadores: um ser que surgiu com o advento da moeda e que se especializou em obtê-la e armazená-la. Não há nada no mundo social que lhes fuja ao controle. Se algum esforço coletivo for tentado terá que ser em direção aos preceitos por eles ditados ou permitidos. Não há a menor possibilidade de se fazer um esforço coletivo em direção a uma vida de verdadeiro respeito à natureza pois qualquer ação neste sentido sempre fere um ou mais interesse desses comerciadores.
Por exemplo ...! O homem-social é manipulado por estes comerciadores pela hipersensibilização de seus sentidos. A cada instante de nossas vidas, especialmente nos últimos 100 anos, somos bombardeados com informações que nos tentam convencer de que algo é muito bom de se ver, de se cheirar, de se tocar, de se ouvir ou de se comer. Isto movimenta as indústrias químicas, do turismo, do lazer, dos vestuários, dos cosméticos, da eletrônica, das bebidas e dos alimentos que respondem talvez por 90% do comércio em todo o mundo. A agressão ao meio ambiente é subproduto de todas elas.
Mas isto é desenvolvimento. Não é possível se desenvolver sem agredir o ambiente? Uma série de atividades chamadas modernamente de sustentáveis já acenam para esta possibilidade, mas esta não é a questão. A questão é que 90% disso que chamamos de desenvolvimento trazem como conseqüência um consumo de energia – aqui com sentido amplo -, que se perde na tentativa de trazer um bem-estar efêmero. Os prazeres físicos, “da carne” são passageiros. Um espetáculo musical assistido, uma refeição saborosa, uma maquiagem embelezadora ou um novo brinquedo têm durabilidade muito pequena e um agravante: precisam ser repetidos porque viciam. A natureza não está agüentando e a reciclagem (que gasta muita energia também) é a única solução criativa que o homem-social conseguiu imaginar. Reeducação, nem pensar. Os comerciadores não deixariam.
Mas como será o mundo sem esses valores sociais? O homem-ecológico terá que descobri-lo a medida que o for construindo. Povos do passado foram dizimados porque não souberam preservar seus recursos naturais ao não abrirem mão de práticas sociais ou religiosas que os agrediam. Algum estranho mecanismo de preservação ao contrário parece que nos impõe uma certa cegueira coletiva. Os nativos da conhecida ilha de Páscoa, no Pacífico, construíram enormes estátuas de pedra - os moais - consumindo toda a floresta de seu pequeno país e tenho certeza de que em dado momento, antes do fim de sua civilização, pressentiram que isto ia acontecer e que iriam morrer todos. Nem por isso mudaram de rumo. Que estranhas estátuas construímos nós, hoje, que serão motivo de espanto ou deboche de paleontólogos no futuro.
Então, estamos fadados a sucumbir? Claro que não. Acho que uma ruptura será inevitável. Mas não será o fim; só um susto. Penso que já dispomos de todo o conhecimento e de todos os instrumentos para construir uma nova civilização. Só não sabemos o que fazer com as instituições sociais que construímos, diga-se de passagem, há pouquíssimo tempo: com a escola que não educa, com a penitenciária que não corrige, com os tribunais que se alimentam dos litígios, com os hospitais e os hospícios que não curam, com os políticos que legislam em causa própria, com a previdência social que é uma afronta à matemática. Estas instituições não precisam existir - ou podem ser muito diferentes -, nós sabemos disso. Mas quem ou o quê tem força para mudá-las? Só mudando o contexto em que estarão inseridas: o grande teatro social.
E depois do susto? Nossa espécie em pouco mais de 100 mil anos saiu da barbárie para as viagens espaciais. Isto não foi por acaso. A nossa capacidade de adaptação é nossa mais importante característica. Quando não houver mais as amarras sociais que nos impedem de fazer o óbvio saberemos o que fazer. Vejo com muito otimismo esta reconstrução. Serão momentos de tensão mais muito estimulantes.
Na sua opinião, como será, na prática, esta reconstrução? Inúmeras iniciativas ao longo do mundo já acenam com soluções possíveis para se reconstruir um mundo sustentável. A permacultura, criada pelo australiano Bill Mollison, é um destes interessantes instrumentos. Alguns institutos no Brasil já a difundem. O nosso, aqui na região serrana do ES, onde moro com minha mulher, é um protótipo do que achamos ser um dos caminhos possíveis. Plantamos grande parte de nosso alimento, captamos da chuva nossa água, tratamos nosso esgoto com plantas, reciclamos nosso lixo, usamos a energia solar para aquecer água e gerar energia elétrica, usamos materiais de construção de baixo impacto para as nossas construções e valorizamos a cultura local. Cremos que através de ações educativas: cursos, trabalhos com empresas, escolas e comunidades carentes, contribuiremos para a formação dos arquitetos desse novo tempo. Será deles a responsabilidade de construir um jeito ecológico de se viver ... e eu acredito que isto seja possível!
E depois de homens-ecológicos, o quê seremos? A evolução continua? É claro. Quando as viagens espaciais forem rotina teremos certamente que lidar com valores, grandezas e verdades que hoje nem consideramos. Como será a vida no cosmos? Um homem-cósmico talvez tenha que assumir o papel de acomodar os anseios e as demanda desse tempo que há de vir. Olharemos então para este nosso planetinha e acharemos graça da ingenuidade de termos sido apenas ecológicos um dia. Um homem-transcendental, espiritualizado talvez encerre este ciclo, mas isto está muito distante. Cuidemos por ora do nosso planeta, que agoniza, que já será tarefa por demais suficiente ... pelo menos por enquanto.
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Um pouco mais sobre o livro: "O Homem-ecológico" |
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Um texto leve e acessível onde história, sociologia e ecologia se intercalam em uma leitura repleta de observações e afirmações tanto polêmicas quanto intrigantes. Partindo de uma abordagem antropológica da evolução da espécie humana, o autor evidencia a falência do modelo social atual, apresentando questões que estimulam o leitor a compreender o tempo em que vivemos e o encoraja a se tornar arquiteto de um novo jeito fazer as coisas- um jeito ecológico e não apenas social. O autor identifica personagens como ecólatras, comerciadores e ambientistas, e mostra como o despertar de uma consciência ecológica, já latente, transformará a rotina das pessoas muito mais do que ousamos imaginar. Um tema atual, apresentado num contexto realista, mas de otimismo. |
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