João José Bigarella
e-mail: irisbigarella@gmail.com
fone: 41-3252-1029


Área: Ciências da Terra


 

 Nascimento
Data: 23/09/1923
Cidade: Curitiba
Estado/Província: Paraná, PR
País: Brasil


foto: Analice de Ávila


Pesquisas
Interpretação de bacias de sedimentação.
Paleocorrentes.
Mapeamento geológico.
Geologia do quaternário.

Títulos
Bacharel (Química) - 1943.
Químico industrial - 1945.
Engenheiro químico - 1953.
Doutor (Física e Química) - Universidade Federal do Paraná, UFPR - 1956.
Professor catedrático (Mineralogia e Geologia econômica) - UFPR - 1956.

Histórico
O professor Bigarella é, há alguns anos, professor visitante da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, e durante a sua vida de professor e pesquisador realizou extensos trabalhos de pesquisa geológica na África do Sul, Namíbia, Angola, Argélia (Saara), Argentina, Uruguai e Paraguai, a respeito das paleocorrentes e da migração dos continentes sul-americano e africano. Os resultados das pesquisas foram publicados em 1972, na Geologische Rundschau e no Boletim Paranaense de Geociências da UFPR. Sua produção acadêmica compreende cerca de 200 artigos, em periódicos científicos do Brasil, Estados Unidos da América, Canadá, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Rússia e África do Sul, além de vários livros na área de Geociências. Entre as suas pesquisas de caráter internacional destacam-se: a revisão global dos depósitos eólicos (dunas), o estudo dos aspectos paleogeográficos do antigo continente de Gondwana e a revisão da geologia e geomorfologia de quaternário brasileiro. A ação multiplicadora do conhecimento tem sido uma preocupação constante em suas atividades de pesquisador e docente, tendo formado e treinado intensivamente equipes de trabalho e colaborado em vários cursos de pós-graduação em universidade brasileiras, orientando dissertações de mestrado e teses de doutoramento. Foi editor das publicações de geociências da UFPR entre 1959 e 1968 e membro do corpo editorial dos periódicos: Marine Geology e PALAEO (Palaeography, Palaeoclimatology and Palaeoecology) editados pela Elsevier Publ. Co. e do periódico Catena, editado pela Catena Verlag. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências da América Latina, e, presidente da Associação de Defesa e Educação Ambiental - ADEA, de 1974 a 1994.

Condecorações
Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico - Presidente da República do Brasil - Jun/1995
Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico - Presidente da República do Brasil - Jul/2000

Homenagens
Engenheiro de Destaque - Instituto de Engenharia do Paraná - 1969

Medalhas
Medalha de Ouro José Bonifácio de Andrada e Silva - Sociedade Brasileira de Geologia - 1966

Prêmios
Prêmio Heleno Fragoso - Centro Heleno Fragoso pelos Direitos Humanos
Prêmio Francisco Sales de Azevedo - Sociedade Brasileira de Cerâmica
Prêmio Almirante Álvaro Alberto - 1992
Títulos Honoríficos
Título "Cidadão Benemérito do Paraná" - Governo do Estado do Paraná - 1997
Título "Vulto Emérito" - Município de Curitiba - 1998
Título "Cidadão Honorário" - Município de Guarapuava - 1998
Título "Cidadão Benemérito" - Município de Matinhos – 1999
 


ENTREVISTA com PROF. DR. JOÃO JOSÉ BIGARELLA - UFPR
FLORIANÓPOLIS – SC – Brasil.
(fonte: Revista Discente EXPRESSÕES GEOGRÁFICAS,  Florianópolis – SC, junho/2006)  www.cfh.ufsc.br/~expgeograficas

1 - Expressões Geográficas: Qual a sua formação e como se deu sua
aproximação com a Geografia?
João José Bigarella: Eu me formei em ciências químicas em 1943 e em
química industrial em 1945. O professor João Ludwig Weber, de mineralogia,
me convidou para trabalhar no Instituto de Biologia de Pesquisas Tecnológicas
(IBPT) do Paraná. Comecei como estagiário em agosto de 1944 e logo em
seguida fui nomeado laboratorista pelo governo numa posição que valia a
pena, pois eu estava sendo bem remunerado. Era um ambiente de pesquisa
muito intenso que a gente aproveitou, isso me valeu muito, foi uma escola. Eu
não tenho curso de geologia, foi a partir da minha atividade no IBTP na
pesquisa de matéria prima para a indústria mineral de cimento, cerâmica, e
mais tarde de jazidas de ferro que me envolvi totalmente na geologia. Antes
disso, completei as cadeiras que faltavam para o curso de engenharia química
e me tornei engenheiro químico. A química me serviu depois como
embasamento para a melhor compreensão dos fenômenos geológicos, só que
eu não passei a trabalhar na profissão de químico, mas na profissão de
geólogo. Mais tarde o CREA apostilou o meu título como geólogo. Fiz, logo em
seguida, a cátedra de mineralogia e geologia econômica na escola de química
a qual assumo até hoje. A cátedra oferecia muitas vantagens, o professor era
“dono” da disciplina. Tive dois assistentes, eles trabalhavam e realizavam
pesquisas. Depois de certo tempo eles passaram a assumir a disciplina e ter
suas carreiras individuais realizadas, foi uma verdadeira escola.

2 - E. G.: Em seus livros, você manifesta a preocupação em desenvolver uma
pesquisa que não se detenha apenas aos fatores geológicos e
geomorfológicos. É um modo de pensar e ver o mundo numa combinação que
une geologia, biologia e sociedade?
B.: Eu poderia ver vários focos. Por exemplo, um dos trabalhos que fiz sobre
dunas. Fiz pesquisas de dunas, nunca me preocupei com aplicação prática.
Publiquei com o Professor Salamuni artigo sobre o levantamento do estilo de
dunas nos EUA em 1961. A partir daí, o professor Runcorn, em New Castle
upon-Tyne, no Reino Unido, achou que essa pesquisa estava comprovando o
trabalho que ele estava fazendo, então, ele me convidou para fazer uma
palestra. Durante a mesma, um americano contestou o meu trabalho, dizendo
que esse trabalho de medição de dunas para obter a direção de paleoventos,
não era correto. Ele disse que tinha feito e que nunca tinha dado certo. Então
falei: “Professor, tenho certeza do que fiz numa frente de 2.500 km de
medições, desde Minas Gerais até o Uruguai, eu encontrei um padrão de
circulação dos ventos fósseis do cretáceo e tenho certeza que isso acontece.
Agora o Sr. me deu uma grande idéia, porque quando eu voltar para o Brasil
vou comprovar o meu trabalho indo medir as dunas recentes da costa
brasileira, desde a foz do Rio Amazonas até a foz do Rio da Prata”, e foi o que
eu fiz. Em determinado momento eu entendi o porquê da pergunta dele, pois
ele tinha trabalhado no deserto, na Califórnia, numa situação em que o vento
predominante não é registrado na pesquisa, porque nesse caso apenas são
registrados os ventos de tempestades. Isto também se verifica aqui na Ilha de
Santa Catarina, na praia da Joaquina, onde não se registra a ação do vento
predominante, devido à presença do morro da Joaquina, que impede o acesso
do vento Nordeste, bem como em Torres, no Rio Grande do Sul, em Cabo
Frio, no Rio de Janeiro. Compreendi o questionamento. Nossas pesquisas
sobre as dunas costeiras foram publicadas nos Estados Unidos, numa
publicação especial da Society of Economic Paleontologist and Mineralogist
com o apoio do Instituto Americano do Petróleo. O estudo da estrutura interna
das dunas facilitava a identificação do ambiente eólico onde se encontravam
os reservatórios de petróleo. Nosso trabalho acadêmico, juntamente com
outras realizadas pelo Dr. E. D. Mackee e o Professor Salamuni encontrou
aplicação pragmática na prospecção do petróleo. Agora, falando num outro
sentido, por exemplo, na parte que diz respeito ao homem. Se você observar
na geologia mais recente, na geologia do presente, vendo as florestas, você
vê o manto de intemperismo, a rocha alterada; a problemática do que pode
acontecer com a eliminação da floresta, desses materiais serem arrastados, a
erosão do solo, o descuido com a tecnologia agronômica; também, o problema
da preocupação com a conservação dos recursos, por exemplo, biológicos, a
biodiversidade... Nós dependemos muitas vezes da busca de um
medicamento, daquilo que está na floresta, daquela planta ou a importância de
um determinado animal, do relacionamento conosco. Então, é preciso ter as
áreas de preservação ambiental. Fui à Índia para saber o porquê da pobreza
local com relação aos recursos naturais. Visitei o interior da Índia,
comunidades budistas, hinduístas, com princípios milenares, talvez, de um
conceito inconsciente da conservação dos recursos naturais. Por exemplo, o
respeito à vaca, não é que ela seja um Deus, mas ela fornece a proteína, o
esterco para o composto e para a produção do alimento. Numa casa de chão
batido e pau-a-pique em que eu fui recebido, tirei o sapato para poder pisar no
chão batido. No centro da sala, muito limpa, estava a manjedoura com a vaca,
onde eles extraíam o leite e recolhiam o esterco para fazer o composto. A parte
da cozinha estava tudo em ordem. A alimentação que se fazia lá era uma
alimentação saudável. Eles eram pobres, felizes, mas não miseráveis. Eles
tinham o que comer, produziam, trabalhavam. Agora, em outras comunidades,
eles passaram a trabalhar nas empresas e perderam a tradição milenar, se
tornaram esqueléticos, com as costelas aparecendo e as feições deprimidas.
Naquelas empresas de cana-de-açúcar, mal conseguiam cortar a cana e levar
um pouco de terra numa gamela em cima da cabeça. A gente notava a
dificuldade deles em transportar isso; é a pobreza que começa a ser miserável.
E daí pra frente você vai para as grandes cidades como Mombai, no meio
daquelas ruas chiques do centro (antigamente se chamava Bombaim), onde
existem favelas paralelas ao centro, sem a mínima condição de higiene e
cheias de gente. No metrô de Bombaim, existem milhares de pessoas deitadas
e morrendo de fome, porque a miséria é total. No Brasil, para minorar o
problema da fome e da miséria, nós temos vastos conhecimentos científicos
sobre os recursos naturais.

3 - E. G.: Atualmente, as paisagens estão constantemente sendo modificadas
por formas humanizadas, aceleradas pelo desenvolvimento técnico-científicoeconômico.
É possível falar sobre a ação humana como intempérie e agente
geológico?
B.: Há cerca de um ano atrás, em dezembro, o governador Roberto Requião
me convidou para fazer uma palestra na chamada Escolinha do Governo que
reúne, todas as terças-feiras, os secretários de estados e vários políticos e,
também, na ocasião eu deveria dar a aula inaugural do curso da força verde.
Então, eu fiz uma palestra com muitas imagens e fui falando do porque do
cuidado que se deve ter com o combate a erosão, com a conservação dos
recursos naturais... E salientei que nós devemos viver dos juros do capital dos
recursos naturais e não usar o capital do recurso natural. Porque se nós
tirarmos o capital, vamos diminuir o recurso natural e rebaixá-lo. Estamos hoje
vivendo do capital. Isso trás um prognóstico muito difícil para o futuro, o
empobrecimento geral. Por exemplo, a ocupação da Amazônia e a sua
devastação: a Amazônia tem um papel primordial na problemática das chuvas.
A chuva da Amazônia vem do hemisfério norte, então antigamente você
acertava o relógio pela chuva que chegava exatamente às duas horas da tarde
e precipitava na floresta. Essa água que evapotranspirava era sugada pela
depressão do Chaco, entre o Paraguai e a Argentina, trazendo a chuva para o
Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul. Esta chuva é benéfica, mas o desmatamento da
Amazônia está diminuindo a evapotranspiração e a quantidade de água que
vai para estes estados. Por exemplo, eu posso mencionar que o oeste e o
norte do Paraná têm uma área climática mais seca e que tem, praticamente
durante um ano, de um à quase dois meses sem precipitação, sendo que esse
ano a seca foi de oito meses. Então esse é um mau sinal para as condições
futuras do sudeste e do sul do Brasil, que possui uma agricultura tão
intensamente desenvolvida. Com a seca, o prejuízo naquela região vai ser
muito grande. A perda da safra esse ano foi considerável. Tudo isso só tende,
com a atual devastação, a piorar. Não vou fazer uma profecia, mas seria o
começo do fim do Brasil, o começo do fim da prosperidade brasileira. Então,
toda essa engenhoca tecnológica está trabalhando para a destruição do país e
pela ganância de obter recursos de maneira imediatista, sem pensar nos filhos,
nos netos e noutras gerações. Não é só o Brasil, os EUA estão fazendo a
mesma coisa, a Europa também. O problema é mundial, o aquecimento global
aumentando a temperatura... A problemática vai ser muito séria e eu não sei o
que pode acontecer. Isso é um problema real que existe. A gente precisa
procurar lutar; as universidades deveriam ter um ponto de luta. Levantar uma
bandeira e avançar divulgando isso, insistindo na parte política, na execução,
cobrando dos órgãos governamentais, sejam eles federais, estaduais ou
municipais, o cumprimento de suas obrigações perante a sociedade para evitar
o problema do aumento da pobreza e da fome no mundo, que é assustador.

4 – E. G.: A temperatura média do planeta caminha para o aquecimento global
ou para uma nova era glacial? Afinal, onde reside a polêmica e qual sua tese
sobre o assunto?
B.: A glaciação acontece mesmo sem a interferência do homem. Nós estamos
num período interglacial, que sucedeu nos últimos dois milhões de anos,
seguidamente existiram períodos glaciais e períodos interglaciais. São quatro
grandes períodos, mas na realidade são trinta e sete glaciações desde o
pleistoceno. Há trinta milhões de anos ocorreu uma grande glaciação, é um
fenômeno comum. Mas esse episódio depende da mecânica celeste, porque a
terra executa ao redor do sol uma órbita circular que passa para uma órbita
elíptica extrema e volta a uma órbita circular num período de noventa mil anos.
Quando a órbita é circular o período é pluvial, chove mais, e, quando ela é
extremamente excêntrica, torna-se muito seca. Então, quase toda a terra se
torna uma área aridificada. A eclíptica balança entre um episódio de eclíptica
máxima de 24,4° para uma eclíptica mínima em 19,1°. Quando ela é máxima a
terra se torna mais úmida, o período é mais pluvial. E quando ela é menos
inclinada o período é seco. A longitude do periedo, quer dizer, a coincidência
da terra estar mais perto do sol no inverno, ou no verão, ou na primavera, ou
no outono, é um ciclo de vinte e dois mil anos, que também influi sobre as
condições climáticas. Isso se repete naturalmente em ciclos, quando as fases
negativas do clima se acumulam, vem uma grande glaciação, depois normaliza
e vem um episódio interglacial. Nós estamos vivendo, há onze mil anos, uma
fase interglacial e estamos caminhando, não posso dizer o número exato de
anos, mas pode ser vinte, trinta mil anos, para uma nova fase em uma época
glacial. Vivemos hoje no interglacial. O homem para se desenvolver como se
desenvolveu, suportou várias fases glaciais; no pleistosceno, naquela época,
existiram duas espécies de homens, o homem de Neanderthal e o homem de
Cro-Magnon. O Neanderthal foi empurrado pelo Cro-Magnon em direção ao
mais frio; possivelmente havia intercruzamento entre o Neanderthal e o Cro-
Magnon, porque há teses que discutem que alguns povos mediterrâneos têm
vestígios de Neanderthal. Essa parte eu não posso explicar porque não é o
meu campo de pesquisa. O homem se tornou homem, desenvolveu mais a sua
capacidade, a sua tecnologia graças aos intervalos negativos enfrentados em
épocas muito drásticas climaticamente. Atualmente o homem está
intensificando o efeito estufa, através da emissão de gás carbônico e metano
que já está afetando o clima. Se continuarmos lançando o gás carbônico
vamos conseguir derreter os gelos na Antártica, o nível do mar vai subir, os
terrenos litorâneos vão ser inundados, o clima vai mudar e, naturalmente, vai
haver outra vez uma seleção natural e só os elementos adaptados às novas
condições vão sobreviver, se não for dessa maneira a espécie humana será
extinta.

5 – E. G.: Qual a sua opinião sobre a transposição do Rio São Francisco e
sobre o projeto apresentado pelo poder executivo?
P. B.: Eu conheço o Nordeste como a palma da mão. Desde 1964, eu fui
convidado pelo Professor Gilberto Osório de Andrade, da Universidade Federal
de Pernambuco, para realizar cursos lá. Eu saía com os estudantes pelo
interior, fazia viagens extensas no semi-árido. Tornei-me um sertanejo, gosto
muito do sertão, é uma paisagem muito bonita, mas ela é inóspita para o
homem. O homem só consegue viver nas áreas chamadas de vargem, que é o
fundo de vale. O homem, durante o episódio da seca, mesmo que o rio seque,
consegue abrir um poço na areia, a um ou dois metros de profundidade, ele
consegue a água. Ele faz a sua roça e vive dessa área com os recursos para
alimentação. Agora, quando ele vai querer expandir a sua atividade agrícola
para a área seca do Nordeste, fica dependente das chuvas. É uma loteria. Se
vier uma série de anos secos, ele acaba sendo um retirante. O projeto que eu
vi no Rio Grande do Norte era para fazer um açude para duas firmas de
Mossoró que exploravam um produto agrícola. Fazendo essa barragem, eles
iam inundar uma grande parte de fundo de vale que tinha uma porção de
moradores nordestinos que sobreviviam dessa área. Eu visitei essas
comunidades pobres, mas não miseráveis, eles tinham o que comer, tinham
escola, havia possibilidades. O programa do açude resolveu construir umas
casas muito bonitas, colocar em cima da região de pedra, transferiu moradores
dos lugares que eles chamam de vargem. É um projeto feito por um professor
do Rio de Janeiro que nunca conheceu o nordeste. É muito bonito! Na hora
que transferiram, o nordestino não tinha onde plantar, não tinha como fazer a
roça, estava tudo ruim ali em cima, ele abandonou. Então aquele açude
alagou, não trouxe benefício social, só trouxe benefício para aquelas duas
firmas. Não acredito que a transposição do São Francisco vai beneficiar doze
milhões de habitantes, porque não são doze milhões de habitantes, mas é um
grupo de coronéis de proprietários de terras que serão beneficiados. Então vai
se gastar um dinheirão para fazer essa obra, o gasto de energia de
bombeamento é muito alto para transpor o rio com um resultado dúbio. Eu não
acredito, por isso aquele padre tem muita razão quando protestou, porque ele
sabe quem o projeto irá beneficiar e o governo federal caiu nesse engano. Eu
espero que isso não saia porque será uma atitude antigeográfica, por exemplo,
Aziz Nacib Ab'Saber, meu companheiro de trabalho durante muito tempo, é
contra, assim como muitos outros geógrafos brasileiros. Os próprios
professores das universidades do Nordeste, do Ceará e de Pernambuco, são
contra. Eles vêem um benefício para um grupo pequeno. Os projetos de
irrigação são muito bonitos, produz-se muito. Por exemplo, tem área de plantio
de uva que produz 2,4 safras de uva por ano, para fazer vinho, para vender ao
exterior, com a uva chamada Itália. É fabuloso, mas o nordestino é um bóia-fria
no projeto. Não há benefícios para o nordestino do local, mas para o grande
grupo. O aspecto social devia ser uma participação conjunta ou em pequenas
cooperativas, ou uma cooperativa maior que tem um investidor maior no meio,
mas o trabalho deles deveria ser pago dentro desses projetos e não eles
serem apenas bóias frias. Se formos fazer alguma coisa no Nordeste vamos
beneficiar realmente quem precisa, o povo nordestino, do sertão. Na Zona da
Mata também há problemas, há uma superpopulação, não tem condições de
absorver, é uma área que pode ser industrializada... O nordeste semi-árido
pode desenvolver melhor um projeto de células fotovoltaicas para gerar
energia elétrica com base na luz solar, isso seria uma vocação muito
importante. Essas placas são, normalmente, muito caras, mas talvez a
pesquisa científica da universidade conseguisse reduzir o custo disso. Nessa
área, a produção de energia elétrica, que não afeta o ambiente, porque são
aquelas torres com placas que absorvem a luz do sol e há, também, a energia
eólica, onde ela for possível, em regiões que tenham ventos. São projetos que
podem beneficiar muito mais o homem e evitar a grande concentração de
capital que, normalmente, acaba saindo do Brasil para outros países. Nós
pagamos muito caro por isso. Eu acho que a comunidade internacional tem
que pensar no futuro do mundo. A pobreza na África, a pobreza na Índia, tudo
isso é uma preocupação muito séria.

6 - E. G.: Qual a sua opinião sobre os recentes conflitos para a criação de
Unidades de Conservação (UCs) no Paraná e Santa Catarina em
áreas remanescentes de Araucárias?
B.: No começo da minha carreira no IBTP, o Diretor do Instituto pediu para que
eu guiasse um australiano que trabalhava com as araucárias na Austrália, para
eu mostrar as florestas de araucárias no Paraná e em Santa Catarina. Fiz a
viagem com ele e continuamos em contato, nós trocramos publicações. Numa
certa conferência escrevi para ele dizendo que iria para a Austrália e
manifestei o meu interesse em conhecer as araucárias de lá. Ele disse: “nesse
momento eu vou para a China, mas na volta eu vou te receber, você espera
uma semana”. Fui para Sidney e fiz uma série de visitas na região, subi depois
para Brisbane, onde ele morava. Saímos a campo para ele me mostrar as
araucárias, na chamada Bunya Mountains onde tem várias espécies, onde a
situação era muito parecida com a araucária aqui do Brasil. Ele Mostrou-me
uma série de outras áreas na Austrália, ao longo da Costa, e me pediu que eu
fizesse um ofício ao Primeiro Ministro falando da necessidade de ter um
Parque, pois ele estava muito preocupado com o desmatamento da araucária
na Austrália, que estava entrando em fase de extinção. Ele fez o mesmo
convite para dezesseis outros pesquisadores da Europa, da Ásia, dos EUA, e
nós escrevemos para o Primeiro Ministro e toda a nossa correspondência foi
publicada por um jornal de Sidney. Logo depois, os madeireiros me mandaram
uma correspondência protestando contra a minha intervenção na Austrália,
que eu não era um australiano, como é que eu estou me metendo nos
problemas da Austrália, protestaram muito contra minha atividade. Mas, só que
na Austrália, menos de um ano depois o governo criou o Parque das
Araucárias e aqui no Brasil até hoje não foi criado. Como a araucária está
extremamente devastada, são poucas as áreas que têm uma concentração da
espécie, sendo que muitas estão em mãos de particulares. Por exemplo, o Dr.
Luciano Pizzatto foi deputado e atuou no IBAMA. Criou particularmente uma
reserva de araucárias em General Carneiro, divisa com Santa Catarina, lá na
área do Contestado. Criando essa reserva, ele precisava fazer com que isso
fosse administrado por uma coisa maior, ou uma fundação, ou pelo próprio
governo, como um parque. Mas, no caso do proprietário de uma área, duas
coisas poderiam acontecer: ele ser pago pela madeira que está lá, ou tirar do
imposto do terreno uma mensalidade pela manutenção da araucária, com o
compromisso de não desmatar. Caso ele desmate, vem a punição. Isso ficaria
muito mais barato do que uma desapropriação e o proprietário continuaria
usufruindo os recursos, aqueles que estariam dentro de uma norma de
prestação de um serviço. Isso seria uma forma. A outra seria a
desapropriação. Com essa preocupação de criar um parque, os proprietários
das araucárias estão matando as araucárias, estão eliminando, estão
envenenando o solo. Então isso é uma falta de consciência ambiental do
proprietário. Se fosse instituído que aquela araucária que está lá iria render um
subsídio pra ele, ele estaria sendo pago para preservar aquela araucária. Hoje
o governo faz um reflorestamento com pinus, poderia pensar em termos
maiores, plantar araucária e usufruir economicamente. Mas é uma viabilidade
de um plantio futuro para araucária. Agora um mínimo de araucária é preciso
ser preservado no Paraná e em Santa Catarina, e não há um acordo entre
proprietários, governo estadual e federal. É uma lástima, talvez em pouco
tempo conseguiremos extinguir a araucária no Brasil. É um problema muito
sério. É preciso que haja uma consciência popular entre proprietários, governo
e o povo. Não vamos agora tirar a propriedade da pessoa, vamos fazer com
que haja um retorno para essa pessoa preservar a araucária. Na Austrália foi
desapropriado e ponto final, lá está a floresta. No Paraná há um estoque
genético de araucária, nós precisamos manter esse estoque. Se a população
desse estoque diminuir, teremos o problema genético de degeneração. Então,
é preciso ter uma extensão razoável de manutenção do estoque genético.
Temos toda a fauna que vive associada à araucária. Tem várias espécies que
são de utilização medicinal.

7 - E. G.: Você já veio várias vezes a Florianópolis, qual a sua percepção sobre
a evolução do município, à luz de sua concepção teórica?
B.: Eu conheço Florianópolis desde 1941. Eu tinha um colega na préengenharia,
Frederico Deutsch. Ele morava na Rua Felipe Schimidt. A casa
dele tinha uma vista sobre a ponte Hercílio Luz; existia aquela praia com
aquelas rochas, a gente descia lá pra tomar banho, caminhava naquelas ruas.
Era uma coisa maravilhosa. Eu vinha ao centro da cidade ver o Footing,
passeava na praça, ia ao cinema. Fiquei encantado com a ilha. O meu
presente de casamento foi uma estadia em Florianópolis, na praia de
Canasvieiras. Tinha três casas em Canasvieiras, estavam construindo um hotel
no meio da praia, o resto era restinga, dunas e vegetação. Não tinha nada. Fiz
muitas caminhadas, fui para o outro lado da ilha, no Rio Vermelho, fizemos
excursões. Foi um momento muito interessante de conhecer o coração da Ilha,
e junto com a minha esposa fiz a parte de um trabalho geográfico/geológico
sobre a planície costeira do norte da ilha e ela se preocupou com o sambaqui.
Juntamos os trabalhos e apresentamos ao professor dela; minha esposo já era
formada, e o professor dela falou: “esse trabalho você não pode publicar,
porque você só pode publicar esse trabalho depois que eu publicar os meus
trabalhos sobre o sambaqui”. E proibiu de publicar. Eu publiquei a minha parte
e o material dela ficou arquivado, lamentavelmente não foi publicado. O
professor Oswaldo Rodrigues Cabral, da Faculdade de Filosofia daqui, várias
vezes me convidou para dar pequenos cursos. O professor Victor Antônio
Pelluso Júnior, me estimulou muito, concedeu várias facilidades para trabalhar
na Ilha com os alunos, até que surgiu a Universidade Federal de Santa
Catarina. Teve um professor que, não me lembro o nome, da área da geografia
que me trouxe várias vezes para cá, para fazer trabalhos. Depois veio a
criação da pós-graduação, com o professor Armen Mamigoniam, um dos
principais professores do curso, juntamente com o professor Odair. De 1985
pra cá me tornei professor visitante da Universidade Federal de Santa Catarina
e continuo até hoje. Orientei vários alunos de pós-graduação, ministro
pequenos cursos, faço normalmente palestras e continuo orientando teses de
doutorado e dissertações de mestrado.

8 - E. G.: Considerando a sua contribuição científica nas questões
relacionadas às ciências da terra, como você avalia as pesquisas que
estão sendo desenvolvidas referentes a Geomorfologia?
P. B.: Até não gostaria de falar nisso, porque decaiu tremendamente a
geomorfologia brasileira. A geomorfologia de antigamente tinha um padrão
científico muito mais elevado do que tem atualmente. Hoje, tem muita coisa
especializada, como saber apertar parafuso numa fábrica, mas isso não é
geomorfologia. Tem que integrar a paisagem na pesquisa. Na década de
quarenta eu tinha muito interesse pela geografia, falava-se muito em relevos,
superfícies de erosão, a parte tectônica, movimentos eustáticos do mar. Mas,
muito dessas coisas da tectônica eu não entendia. Basta o nível do mar baixar
um metro que vai logo em seguida aparecer aqui em Curitiba um vestígio. Mas,
como isso pode ser realizado? Eu não entendia isso de jeito algum. Com a
pesquisa que a gente fazia, se passou a trabalhar muito com estratigrafia dos
depósitos antigos do paleozóico. Eu não conseguia interpretar aquela
estrutura, procurava nos ambientes recentes ver como um rio deposita areia,
como uma praia faz um depósito, como um vento faz uma duna. E começamos
a trabalhar também com coisas mais recentes. No início, com o professor Riad
Salamuni, que foi meu colega de trabalho quando voltou dos EUA, depois com
a professora Maria Regina Mousinho, com o professor Jorge Xavier da Silva e
também ocorreu um contato muito próximo com o professor Aziz Nacib
Ab'Saber. E quando a gente começou com esse grupo, Salamuni, Regina e o
Xavier, começamos a ver uma série de coisas, reconhecer pedimentos em
Garuva, superfícies diferentes que não eram tectônicas. Em Canhanduva, e
em Itajaí, aprendemos a evolução desses depósitos, como eles se formaram
no tempo; passamos a fazer correlação da estratigrafia desses depósitos e
relacionar com o nível de erosão, como se fosse uma camada guia. Nós
usamos a superfície como elemento guia para levar um depósito a relacionar
com outra bacia. Quando optamos por isso, na realidade nós estamos
modificando o estudo geomorfológico, adotando uma nova tecnologia, que
geomorfologia só podia ser feita com conhecimento da estrutura desse nível, o
que existe por baixo e o que ele conta da história e da origem do nível. Nós
passamos a adotar aquilo que se chamou depois de geomorfologia climática e
que hoje está abandonada. Por exemplo, na Universidade Federal do Paraná
só se fala em tectônica, em outros lugares do Brasil isso foi abolido. E com
essa história de que nós não temos o coração de cristal, nós trazemos pacotes
do exterior, procuramos implantar aqui sem o pé no chão. Isso é a crítica que
eu faço a todas as universidades, pois a situação é essa. E, dizem também, “o
trabalho só tem valor de dez anos pra cá. Para trás está ultrapassado”. Se nós
não tivermos a memória histórica da ciência, nós estamos inventando as
coisas a toda hora. Em 2005, um dos alunos de pós-graduação escreve que:
“um rio nasce numa superfície mais elevada e desce para o mar”. Fez um
trabalho falando sobre isso. Um outro aluno cita ele, segundo fulano de tal,
publicação de 2005, “um rio nasce lá em cima e vai para o mar”; essa é a
ciência brasileira de hoje. Isso é um caso muito sério, não é piada, isso
acontece. Há ignorância da literatura antiga, porque, na realidade, a gente
aprende muita coisa lendo trabalho do século XIX, então, dizer que foi escrito
há mais de dez anos e é ultrapassado, é um suicídio.


fonte: Revista Discente Expressões Geográficas. Florianópolis – SC, Nº02, p. 01-09, jun/2006
www.cfh.ufsc.br/~expgeograficas

 

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