Piranhas vermelhas são medrosas e comem vegetais

redação EcoTerra Brasil


A sabedoria popular descreve a piranha vermelha (Pygocentrus nattereri) como um peixe voraz que é atraído pelo cheiro de sangue e pode formar cardumes para atacar pessoas e animais que tentam atravessar os rios barrentos que a espécie costuma habitar nas Bacias Amazônica, Araguaia-Tocantins, Prata, São Francisco e açudes do Nordeste. A realidade não é bem assim. Um estudo sobre as piranhas vermelhas, realizado desde 2001 pelos pesquisadores Helder Queiroz e Anne Magurran na Reserva Mamirauá, no Amazonas, mostrou que as piranhas são apenas peixes normais com muitos dentes afiados.

O trabalho mais recente dos pesquisadores, e o terceiro de uma série sobre as piranhas, foi publicado na internet pela revista Biology Letters, editada pela Royal Society Britânica. Segundo esta pesquisa, além de terem uma dieta composta principalmente de vegetais, e às vezes se alimentarem de pequenos peixes e invertebrados, insetos e restos de animais mortos, as piranhas-caju (como também são conhecidas) se agrupam para se proteger de predadores como botos, peixes maiores e pássaros mergulhadores e não praticam a caça grupal, característica descrita por vários pesquisadores. “Quanto maiores os grupos, mais tranqüilos os animais são e mais rapidamente eles se recuperam de situações estressantes. Isto pode não ser a única função dos cardumes, mas certamente é uma função importante”, disse o zoólogo Helder Queiroz.


Foto: Ana Cláudia -  www.aquaonline.com.br

Para provar tais afirmações, os pesquisadores coletaram piranhas que foram mantidas em um tanque submerso em seu habitat natural com níveis normais de oxigênio que eram regularmente monitorados para minimizar os níveis de estresse dos animais. Depois, eles separaram os peixes e mediram os níveis operculares da piranha-vermelha sozinha e em grupos de dois, quatro e oito indivíduos. Esse nível é baseado na taxa de batimentos do opérculo,  estrutura que reveste a abertura das brânquias destes peixes. Quando as piranhas passam por situações estressantes e que exigem mais oxigênio, o opérculo  vibra com maior freqüência.

O registro das taxas operculares foi realizado durante a simulação de um ataque de um pássaro predador feito de plástico. Durante este teste, foi observado que os grupos de dois e de oito indivíduos apresentavam comportamentos diferentes. Cinco minutos após o experimento, os níveis operculares foram medidos novamente e comprovaram que os grupos maiores se tranqüilizam mais rápido depois de uma ameaça. Também foram registradas as taxas nas situações ‘pacíficas’, antes da ameaça do pássaro predador. Nas duas ocasiões, as freqüências mais baixas foram observadas nos grupos de oito indivíduos. Além disso, depois do suposto ataque, os grupos maiores se ‘tranqüilizaram’ com mais rapidez, isto é, readquiriram o número de batimentos iniciais em um intervalo mais breve.

Para Queiroz, é importante desvendar mitos a respeito de animais considerados perigosos. “Por conta desta má reputação das piranhas, muitas pessoas acreditam que elas devem ser exterminadas. Como todo animal, as piranhas ocupam um papel importante nos sistemas naturais e sua remoção pode causar grandes desequilíbrios”. Ele diz ainda que se deve definir adequadamente o papel das piranhas em atividades econômicas como a pecuária ou a pesca. “A reputação que piranhas causam grandes ataques ao gado simplesmente não procede. Porém, parece ser correta a visão de que as piranhas podem destruir redes de pesca ao comerem animais mortos que se encontram presos nelas”.

No momento, Queiroz trabalha em outra pesquisa para provar que estes animais não são carnívoros obrigatórios, e sim onívoros-carnívoros oportunistas. “Isto nem é tanta novidade assim, pois outros trabalhos já falaram coisas parecidas, mas quando colocamos isso no contexto da nossa pesquisa continuada fica claro que estes animais são muito mal compreendidos por nós, humanos”.



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